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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Casa roubada, trancas à porta!

É do conhecimento de todos o flagelo que temos vivido nos últimos dias. A catástrofe de Pedrógão Grande não deixa indiferente ninguém. Hectares de chamas, centenas de desalojados, centenas de feridos e mais de seis dezenas de pessoas mortas. Pedrógão tem sido motivo de destaque durante os últimos dias. A indiferença não se faz sentir. É horrivel aquilo a que assistimos, aquilo que nos vai chegando pela comunicação social. É enorme também a quantidade de comentários, textos, iniciativas de solidariedade que se têm assistido. Este é mais um texto opinativo, como tantos outros, com o meu ponto de vista.

Pedrógão Grande é uma terra que faz parte das minhas memórias há tantos anos quanto me consigo lembrar. Os meus avós maternos vivem a poucos quilómetros de lá. Há coisa de 13 anos, enquanto aproveitava férias na terra dos meus avós, um enorme fogo veio também daquela zona, levando tudo aquilo que existia à frente. Só quem vive uma situação destas consegue compreender perfeitamente certas coisas. A aflição de ver tudo a arder à volta é enorme, as inúmeras frentes e a grande dificuldade de acessos, juntamente com a falta de luz (para retirar águas de furos) somando a velocidade a que o fogo avança, resulta numa enorme equação impossível de resolver. As horas em frente ao calor são enormes, as forças falham, os corpos desidratam. Se os bombeiros tinham o meu respeito, de há treze anos para cá aumentou. Respeito o trabalho deles, compreendo que não consigam estar em todo o lado. Decisões precipitadas levam a desastres, como aconteceu bem recentemente, aqui na zona onde vivo. Quem têm por gosto culpar os homens que vão e deixam as suas famílias sem saber se voltam, que faça um melhor trabalho: que vá para uma corporação, que conheça realmente as pessoas que arriscam as suas vidas pelos outros e pelas coisas dos outros. Hoje os desconhecidos, amanhã nós. image_content_791674_20170618231842.jpg

A comunicação social tem estado em peso. A quantidade de reportagens, entrevistas e afins que se têm feito, chegam a sufocar-nos, levando à manifestações de opiniões diversas. Verdade que cada pessoa tem direito à sua opinião e que não deve ser censurada. Por isso, eis a minha em relação à comunicação social. Sei perfeitamente que o trabalho deles é estar em cima do acontecimento, garantindo, assim, as "notícias de última hora" e de "primeira mão". Reconheço que esse é o trabalho deles e que as grandes empresas para que trabalham sobrevivem com as audiências e afins. Reconheço ainda que, um jornalista ao cobrir um acontecimento, vai tentar de tudo para garantir o seu lugar, ganhar um pouco mais, ser reconhecido pelos seus superiores. Contudo não me é possível compreender a falta de sensibilidade, de valores que em alguns momentos certos jornalistas manifestam. A TVI tem sido bombardiada com maus comentários (e atenção que não estou a defender esta cadeia televisiva) por causa das reportagens que foram feitas. Antes de passar àquilo que o leitor deve estar à espera, quero enaltecer também a atitude de um jornalista pouco falado, que estando a fazer a reportagem ajudou uma idosa a sair de casa. Como este, muitos terão agido também, mas como em tanta coisa neste mundo, o mal sobressai mais que o bom. Seria uma falha grave, ou não, ocultar a famosa reportagem que a Judite de Sousa fez. Este caso deveria ser esquecido, levado ao esquecimento. Mas ser-me-ia impossivel fazê-lo porque, como se diz em bom português, "deu-me a volta aos intestinos". Quanta frieza poderá existir no coração de uma pessoa para que, num estado de calamidade como o que vivemos, conseguir fazer uma reportagem a poucos metros de um cadáver, dos restos de uma pessoa que morreu de uma forma tão bárbara, tão agonizante. Não aceito a desculpa de que ela foi "obrigada", nem que isto nem que aquilo. O mau jornalismo da Judite de Sousa têm-se vindo a manifestar ao longo dos tempos, desde a má sorte que teve da perda do seu filho. Judite de Sousa já não têm uma imagem, não têm expressão. Ela é (ou era) uma jornalista de renome, uma pivot exíma, de quem só se poderiam tirar bons exemplos. Mas depois desta reportagem, a sua imagem está na lama, ninguém lhe dá credibilidade. Como ela, outros possivelmente também o fizeram, mas ela poder-se-ia ter negado. O seu posto de trabalho não corre perigo. E se acham que jornalismo é isto, peço desculpa por viver num mundo diferente.

Outro assunto que não poderia deixar sem referência, são os grandes actos de solidariedade. E não, não me refiro às grandes doações de dinheiro para as vítimas, mas sim de outras que não são publicitadas. Perdoai-me a religiosidade, mas Cristo disse um dia: "não saiba a tua mão direita aquilo que faz a esquerda". Ou seja, que não é necessário anunciar a todo o mundo o bem que estou a fazer. Contudo não pode ser deixado fora da equação os templos globais e das redes sociais em que vivemos. Com muita facilidade e, diria até, naturalidade, partilhamos o que fazemos, principalmente os sociodependentes. É um ato normal nos dias de hoje e quem sabe, até uma forma de encorajar outros a tomarem a mesma atitude. A solidariedade tem-se manifestado no povo português, nem que seja só de intenção. Outros assuntos podem ser falados sobre este mesmo tema. Há ainda referências ao Presidente da República, Primeiro Ministro, outros ministros, associações e direções. Mas isso de nada interessa agora. Penso que o que é necessário neste preciso momento é apagar as chamas que ainda lavram, acompanhar as familias, ajudar a sarar corações.

 

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Mas como referia no título deste post, é preciso tomar atitudes a outros niveis. Temos vivido fogos todos os anos, alguns com várias mortes. Todos os anos o filme se repete, todos os anos as desculpas são as mesmas. Está na altura de sair para a rua, de fazer planeamentos, limpezas nas matas. Senhores autarcas e concorrentes a autarquias: se querem prometer e cumprir, que as matas e florestas sejam o vosso moto de candidatura. Olhem por aquilo que é nosso porque ninguem olhará por nós. Senhores proprietários, talvez os fogos sejam motivo de ganhar algum, para fazerem uma limpeza boa nas vossas matas. Ou até comprar terrenos a baixo custo, madeiras a preço baixo. Pensem mesmo no que querem deste país, porque por este andar, não teremos país.