Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Bullying & Cyberbullying

Tive hoje a oportunidade de participar numa conferência, no âmbito do Mês da Prevenção dos Maus-tratos na Infância, sobre bullying e cyberbullying, promovida dela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Vouzela.

Apesar de todos já termos ouvido falar sobre este assunto, não nos podemos esquecer que, cada vez mais, é um assunto em cima da mesa, um assunto com que todos nos devemos preocupar. O bullying e o cyberbullying estão presentes nas nossas escolas, nas nossas comunidades, nas redes sociais.

Com a participação da Dra. Teresa Pessoa da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação de Coimbra e da Dra Teresa Teixeira do Instituto Português do Desporto e da Juventude de Viseu, falaram-se de assuntos como os dilemas e desafios do cyberbullying e do Movimento contra o discurso de ódio.

Numa breve explanação, a Dra Teresa Pessoa colocou em cima da mesa alguns dados sobre percentagens deste tema, bem como a forma como acontece mais frequentemente. É fácil percebermos quem são os agressores e quem são as vítimas de bullying. Mas quando falamos de cyberbullying, a coisa vira um pouco ao contrário. Muitas vezes o agressor é a vítima, e a vítima o agressor. É muito fácil estar atrás de um computador, deitadinho da cama, no sofá, e ser-se um autêntico agressor cybernauta. Perfis falsos em contas de redes sociais, palavras de ódio e rancor em textos. Mas não nos ficamos por aqui. A facilidade com que se fotografa e faz um filme nos dias de hoje, com que se partilham as coisas que circulam pela internet, é também uma forma de bulying: a imagem de uma pessoa fica denegrida com muita facilidade. Sobre este assunto, pergunto-me não sobre a forma como parar isto, mas que tipo de acompanhamento têm as vítimas? Que consequências têm os agressores? Uma mancha num cadastro será suficiente? Como se acompanham as vítimas, evitando males maiores?

Correm na internet várias noticias sobre um jogo intitulado de Blue Whale. Depois de alguma investigação (principalmente num blogue brasileiro que fala bem sobre o assunto [aqui]) percebi que este suposto jogo leva vários jovens ao suicídio, à mutilação. São ameaçados de que têm de cumprir todos os passos do jogo e caso não o façam as familias podem sofrer consequências. É uma entrada direta para a morte. E são adolescentes com problemas que entram neste jogo e outros que insentivam a que isto aconteça. Diz-se que é melhor deixar o assunto morrer, que no fim tudo se resolverá. Pois eu acho que não, que cada vez mais se deve falar destes assuntos para que as pessoas se apercebam destes sinais, para que possa estender uma mão a quem precisa mas não tem coragem para a pedir.

E este tema leva-me a introduzir o segundo tema debatido nesta conferência: o discurso de ódio. Como são várias as formas de bullying, as palavras proferidas e escritas também o são. Podemos dizer que o racismo, a homofobia, a violência doméstica, entre tantas áreas são também formas de bullying. De uma forma muito prática, a Dra Teresa Teixeira falou sobre este assunto à audiência, composta por formadores e formandos. Em muita coisa me revi nas palavras da Dra Teresa.

18012894_1606067122755837_566676022_o.jpg

 

A verdade é que, ao longo da vida, vamos sofrendo vários tipos de bullying. Eis um testemunho na primeira pessoa.

Quem me conhece, que conhece a minha vida, desconhece este facto sobre mim. Durante vários anos também fui vítima de bullying, a diversos niveis: físico, psicológico, cyberbullying. No meu tempo não se falava destas coisas, os termos não eram conhecidos. Sofri bullying porque não era igual à maioria, porque pensava de maneira diferente. Bullying porque os meus ideais eram diferentes, porque aquilo que eu gostava era diferente. Porque as coisas que eu escrevia incomodavam. Fui achincalhado publicamente, fui agredido, fui ameaçado. Fui humilhado, acusado, desprezado. Isso talhou a pessoa que hoje sou. É fácil falarmos as coisas da boca para fora sem pensar na pessoa que está ao lado, escrever comentários, ameaçar. É fácil ocultarmos isso ao mundo, escondermo-nos e fazer de conta que nada se passa.

Não é fácil pedirmos ajuda. A vergonha, a falta de forças, impede-nos. Nem todos somos fortes o suficiente e alguns chegam a colocar um ponto final nas suas vidas. Depois? Depois ninguém consegue perceber o porquê de uma atitude dessas, ninguém viu sinais de nada. Mas os sinais estavam lá, as razões conhecidas por todos. Hoje sou uma pessoa diferente, mas as marcas continuam cá. Não tenho um equilibrio sentimental como muitos outros, não aceito ajuda de terceiros, fecho-me demasiadas vezes sobre o meu casulo. Sou inseguro, incapaz de dar um passo arriscado, de tomar decisões que devem ser tomadas. Rejeito a ajuda, tenho-me como muito independente. Vesti carapaças que não quebram, criei um "eu" forte que só existe fora das paredes do meu quarto. Hoje sou uma pessoa diferente em tantos aspectos, mas ainda permaneço fragil em tantos outros. Sou sempre o primeiro a querer ajudar outros que precisem, a tentar evitar que passem por aquilo que eu passei. Queria ser mais ativo neste campo, mas nem sempre é fácil, as lembranças fazem recuar.

Hoje deixo aqui mais um alerta, como há em tantos outros locais: não permitam que isso aconteça à vossa volta. Não vistam a capa do "não é comigo". Somos todos pessoas, somos todos seres com direitos e deveres. Não devemos passar ao lado, mas agir quando tiver que se agir. Não partilhem com pena isto ou aquilo, ouçam os gritos que são dados no silêncio, leiam os pedidos de ajuda que aparecem constantemente. Uma simples palavra pode ajudar. Denunciem, façam o vosso papel como cidadãos. Somos todos responsáveis uns pelos outros. Não permitam que isto chegue a um fim triste. Tomem atitudes. Se eu fizer um bem a alguém e esse alguém retribuir com bem a um outro, criamos um mundo melhor. Não apoiem a violência.

2 comentários

Comentar post