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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Ao longo da linha da água...

Perdi-te com todas as minhas tentativas de te conquistar. Pensei ser a melhor forma de lutar por ti, de te mostrar o quão gosto de ti e és importante para mim. E agora, no fim, vejo que tudo o que fiz foi errado. Agora percebo que nas minhas tentativas de te ter, acabei por te perder. Em todas as minhas formas de te aproximar de mim, simplesmente te afastei.

Termina mais um dia, aqui na praia, onde tu não estás ao meu lado. Passeio à beira mar pensando no teu cheiro, nos teus olhos e nos teus lábios. Esses lábios agridoces que sabem a cerejas e cigarros. Procuro a tua mão perdida ao lado da minha, mas aquilo que encontro é o vazio. E, de forma vazia, deambulo junto à linha onde rebenta a espuma das ondas. O dia está lindo, mas tu não estás a meu lado. Perdi-te há alguns metros atrás ou, quem sabe, há vários dias. Ainda agora, na onda que rebentou junto aos meus pés, poderia jurar que estavas comigo, mas não estás. Ficaste, algures, a olhar o mar ou a caminhar noutra direcção, separando-nos cada vez mais.

EIMG_3307.JPGscrevi o teu nome na areia, para que soubesses que eu ali tinha estado, a pensar em ti, a desejar-te, a matar as saudades que sinto de ti. Ainda resistiu à primeira onda. Mas na segunda, o mar apagou o teu nome, sem deixar vestígio algum. E como o teu nome na areia desapareceu, levado pelo mar, talvez também tu desapareças da minha mente, porque para ti, eu já desapareci. Eras (e és) mais do que aquilo que possas imaginar. Mas não se ama pelos dois. Como dizem lá na terrinha, o que um não quer, dois não fazem. Eu queria (e continuo a querer, por mais estúpido que possa parecer) mas tu não (ou pelo menos assim o deste a entender)! Eu continuei o caminho que jurámos percorrer juntos, naquela manhã de chuva, enrolados na cama, a comer cerejas e fumar cigarros. Sempre as cerejas e os cigarros, aquele sabor que os teus lábios sempre tiveram para mim. Eu continuei a percorrer, mesmo depois de teres virado costas e deixado de estar a meu lado.

Não te odeio. Aliás, acho que ainda te amo mais. Eu não sou perfeito, não tenho nada a que me possa agarrar. E tu? Tu mereces bem melhor. Ambos o sabemos. Aliás, nunca compreendi como ficaste a meu lado todo este tempo: sou tão imperfeito, sem nada para te dar. Nem o meu coração é bom, pois fraqueja muitas vezes. De tudo aquilo que nunca tive, sempre te dei o que de melhor poderia oferecer: amor, fidelidade, carinho e atenção. Sim, eu sei que há coisas que fiz e que nunca te disse (mas nada que comprometesse aquilo que sempre te dei, e o que só tinha para te dar). Mas se com o que te disse te afastei, mais longe estarias se soubesses toda a verdade.

Caminho ao longo do rebentar da espuma das ondas do mar. Para trás ficam um único par de pegadas, mas são dois que seguem em frente: eu e o meu coração destroçado. Sempre te disse que nem tudo seria amor, que nem tudo seria suave como as pétalas das rosas. Também haveriam espinhos e momentos rugosos como as folhas de um rosa. E nisto, nesta analogia tão parva como os sentimentos que me correm nas veias, estiveste sempre como uma rosa, dentro de uma redoma de vidro. Uma rosa que eu não queria que desaparecesse. E fomos sendo, calmamente, rosa e príncipe. Mas um dia eu perdi o estatuto de príncipe, fui destronado, caído do meu pequeno planeta. E vi-te florescer longe de mim, sem te puder alcançar. Caminho ao longo da linha que separa o mar da terra e tu não estás. Caminho com os olhos caídos, com lágrimas que sabem a sal. E naquele momento em que levanto os olhos para dizer adeus, ali estás tu à minha espera, com o teu sorriso maroto, os teus olhos reluzentes, os teus lábios que sabem a cigarros e cerejas e o teu cheiro a maresia. Sempre estiveste comigo, eu é que não te consegui ver.