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Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

Um Blogue de Ismael Sousa

A perspetiva de um homem num mundo tão igual.

A noite

O frio. A noite. A lareira acesa. Infinitos pensamentos, infinitas memórias. Magoado. Novamente magoado. Mas que interessa? Um simples meio para atingir um fim. Esse tem sido o meu papel na vida de algumas pessoas. Que importam os sentimentos e emoções? Nada, rigorosamente nada.

O sonho de uma vida, os projetos, a própria vida. Tudo deitado por água abaixo na imensidão de sentimentos que bateram fortemente num coração frágil e remendado.

O vento frio da noite sopra na sua intensidade de uma noite de inverno. O fogo consome a lenha com que vou alimentando a lareira. Dentro de mim o gelo. E tanto, tanto que eu senti e guardei para mim. Exteriorizar? Para quê? Mais um argumento para partirem, para se afastarem, para ignorarem. Dói, dói intensamente.

A vida, perdida em mil ilusões, vai continuando, independentemente da forma como estás. Importa sorrir e fingir que tudo está bem. Palhaço de sorriso em palco, de lágrima no camarim.

As horas intermináveis da noite passam lentamente. Ouço bater cada uma dessas horas e perco-me a escrevinhar imensas palavras sem sentido naquele caderno de capa preta que tanto me acompanha. Escrevo indiferente a todo o mundo que me rodeia, em qualquer lugar. A escrita, tantas vezes a escrita. Refúgio de sentimentos e de estados de alma. Desenhei com palavras, tantas vezes, o mundo ilusório onde vivi. Eu e a minha solidão. Eu e o abandono em que me deixaram.

Na verdade, a solidão não me incomoda, mas aquilo que tanto me faz sofrer, chorar intensamente, é o abandono onde me deixaram. Um poço fundo, sem escapatória possível. E, de vez em quando, alguém espreita, tentando dar a mão, esquecendo a escada que ali está tão próxima. Deixar estar, deixar morrer. Que importa tudo o resto?

A noite está escura. As nuvens cobrem todo o firmamento, impedindo que se veja a luz das estrelas. E elas que deram esperança, agora nada dizem. E eu, aqui, tentando encontrar um sentido para a vida miserável que tenho.

Olho pela vidraça da janela, perdendo-me em olhares vagos, sem pontos de focagem. Perco-me no vazio de tantas memórias. Que sentido, que mar imenso de nada? Falta o brilho, falta tanta coisa e tão pouca me faria feliz.

Tudo em meu redor é desprovido de alma, de qualquer relação com o ambiente que desejei um dia para mim. E amanhã, como será? E o resto da vida que me resta, o que será dela?

Deambulo, vagarosamente, pelas ruas da memória. Tantas boas mas que agora nada mais são que uma faca que rompe as amarras que seguram os pedaços partidos do meu coração. E de novo as lágrimas pelo rosto, salgadas e quentes. A mágoa, a dor, tanta coisa reduzida a simples lágrimas quentes e salgadas. Há sonhos, tantos, destruídos. Em mim, os escombros desses sonhos de que já nada valem. E depois varridos para uma canto da minha mente sempre que surge a ideia de voltar a ser feliz. Mas depois paira o vazio, o nada, aquele lugar fantasma.

Iludo-me, com muita facilidade. Iludo-me pensando que um dia voltarão. E espero, continuamente, em todos os dias da minha vida. Iludo-me, pensando que posso voltar a ser amado, a ser desejado. Porquê eu? Eu amo sempre com tanta facilidade, nesta minha maneira desleixada de amar.

Começou a chover. Quero sair daqui, deixar-me molhar pela água da chuva. Encharcar o corpo com desejos e esperanças. Deixar-me inebriar por esperanças vãs, na expetativa de me voltarem a fazer sorrir, verdadeiramente, por escassos momentos.

A chuva, o sonho e as esperanças perdidas. E eu, fechado aqui, diante da lareira que já não arde, diante dos sonhos partidos e memórias dolorosas. E eu aqui, fechado e abandonado. E por onde andará a vã vida feliz? Só a distância e o excesso de sonhos.

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